setembro 06, 2009



Logo no início de A Aurora da Minha Vida, um visitante, que vem rever a escola de sua infância, diz à velha professora que o recebe: “A gente não tinha liberdade para nada. Os professores decidiam a vida dos alunos; os diretores, a dos professores; e alguém, lá em cima, devia decidir a dos diretores.” Falando explicitamente sobre a escola primária e secundária no Brasil, seu folclore, seu cotidiano, seus programas e seus relacionamentos humanos, Naum Alves de Souza escreveu uma contundente crítica sobre a sociedade brasileira. Porque, neste espetáculo, a sala de aula é um microcosmo da realidade que está fora dos muros da escola, reproduzindo o mesmo sistema hierárquico, as mesmas restrições, as mesmas discriminações.
Ninguém na peça tem nome próprio. A hierarquia escolar é designada pelas suas funções: Diretor, Padre, Professora de Inglês, Professor de Desenho, etc. Os alunos são designados por adjetivos: a Adiantada, o Quieto, o Órfão, a Gorda, o Puxa-saco, as Gêmeas e o Bobo. Ou seja, estamos diante de tipos, mais do que de pessoas reais. Mas as personagens acabam adquirindo, aos poucos, contornos psicológicos que as individualizam. A Adiantada é metida a besta e boa aluna, porque seu pai é gerente de banco e lhe paga aulas particulares; o Quieto é autocontrolado e autoritário, porque traz para a classe os valores que lhe são impostos pelo seu pai militar; e assim por diante.
Não existe um enredo propriamente dito. A história é fragmentada em uma longa série de quadros, cada um alicerçado num minidrama completo, com um conflito próprio claramente definido. Através de um hábil artifício estrutural, em cada aula um aluno é retirado da sala e investido no papel do professor; assim, cada ator interpreta o seu papel como aluno, e tem a oportunidade de transformar-se, num dado momento, num representante da hierarquia escolar.
A Aurora da Minha Vida é uma obra maldosa, cruel; mas envolvida numa capa de poesia criada pelo humor muito singular de Naum e, sobretudo, pelo ângulo saudoso através do qual ele enfoca o seu – o nosso – passado.


Elenco:
Michele Campos………………..A Adiantada / Professora de português / Mãe / Freira
Saulo Sisnando………………….O Quieto / Professor de matemática
Leonel Ferreira………………….O Puxa / Professor de desenho
Flavio Furtado…………………..O Órfão / Professor de português
Marta Ferreira………………….Gêmea / Professora de francês
Liliane Garcia…………………..Gêmea / Professora de inglês
Davi Mansour…………………..O Bobo / Padre / Diretor
Dina Mamede…………………..Gorda / Professora de matemática



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